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Não é de hoje que observamos,
via imprensa, fatos acontecidos com grandes corporações. Atentados,
acidentes ambientais, casos de litígio, consequências danosas à saúde de
pessoas que consumiram remédios ou alimentos, entre tantos outros
noticiários e manchetes. Sem contar com as matérias sensacionalistas,
dos inescrupulosos de plantão, que se aproveitam de alguma situação para
autopromoção ou em busca de alguns pontos de audiência. A
vulnerabilidade do ambiente do negócio deixa as organizações frágeis a
Crises.
Também, não raro, tomamos conhecimento de situações negativas
decorrentes de fusão entre empresas, de executivos demitidos que se
vingam ou de mudanças bruscas de mercado. O impacto é maior, e mais
sensível aos olhos do grande público, quando estão envolvidas vidas,
investigações e direito do consumidor. Em situações assim, a pergunta
que paira é: será que a liderança dessas empresas não sabia e não fez
nada que pudesse evitar a catástrofe? A resposta é: nem sempre.
Cada vez mais é necessária a
aplicação da metodologia Gerência de Crises. E essa importância
crescente decorre da integração mundial, quer seja pelo lado econômico,
quer seja pela evolução da tecnologia e da comunicação. Uma mina que
explode na África do Sul, um medicamento que é vendido na Alemanha ou um
refrigerante consumido num país asiático os reflexos são mundiais e
imediatos. A crise não escolhe lugar e, se não controlada, se espalha
provocando efeitos terríveis. Quanto custa à marca de um refrigerante de
alcance mundial se alguns poucos consumidores, independentemente de onde
ocorra, forem agredidos com o uso do produto?
Vamos conceituar, agora, o
termo crise como qualquer evento sério e negativo de consequências
prejudiciais à organização. A Gerência de Crises, deste modo, é o
processo de gestão necessário ao tratamento àquele evento sério e
negativo. E quando falamos em Crise referimo-nos à gravidade e
probabilidade de ocorrência de um dano às pessoas, às operações, para os
negócios e/ou para a reputação da empresa.
De forma geral, temos a
tendência, ainda que trabalhemos com possibilidades e com a formulação
de cenários, de acreditar que o pior não vai acontecer. Ficamos
sensibilizados com a doença do vizinho, mas achando que aquele mal não
irá frequentar a nossa casa. Quando acontece, ainda que remotíssima a
probabilidade, é o caos. Este é o cenário para a instalação da crise. E
se não for controlada as consequências poderão ser ainda piores.
A Gerência de Crises deve ter
seu início na atividade de planejamento estratégico da organização. Lá
os cenários são formulados, suas consequências são avaliadas e as
contingências são desenvolvidas. Cabe destacar que nessa etapa quando
estamos formulando possibilidades e desenhando cenários, a racionalidade
sobrepõe-se ao emocional. Muito diferente quando somos pegos de surpresa
e a componente emocional embota a razão. Seguramente, durante a crise,
as decisões são acompanhadas de um fator de estresse muito maior. O que
a Gerência de Crises se propõe é controlar o evento sério e negativo
para a recuperação dos prejuízos. Sem este controle teremos,
inevitavelmente, a catástrofe.
Nos anos 80, as empresas
estavam preocupadas com a necessidade crescente de proteger suas
reputações. Na década seguinte, o foco deslocou-se para trabalhar as
causas das crises, num posicionamento muito mas pró-ativo. Esse é o
fundamento que norteia as empresas que buscam a excelência do desempenho
da sua gestão. As ações passam para o desenvolvimento de planos
necessários à implementação rápida no caso de uma ocorrência
prejudicial. É mais que um simples “Plano B”. Hoje estamos falando em
Gerência de Crises como um instrumento vital para a condução dos
negócios, tomando, de forma crescente, as agendas dos principais
executivos que estão interessados com a reputação e com os resultados
das suas organizações.
Numa empresa comprometida com
a perenidade dos negócios tem na Gerência de Crises o apoio que a sua
alta direção necessita para o sucesso. As razões, entre outras, para o
uso dessa disciplina administrativa como resposta rápida a situações
adversas são: confiança da organização, representada pela alta direção,
perante os clientes, sociedade, comunidade, acionistas, fornecedores,
governos e concorrência; expansão do terrorismo urbano; questões e
demandas ambientais crescentes. É impossível evitar todos os riscos. Mas
é responsabilidade da liderança considerar a potencialidade e como
desviar das ameaças identificadas. A construção de cenários, quando na
formulação do planejamento estratégico, deve incluir fatores de risco
antecipando-se e tornando-o robusto ao mundo real, onde as
possibilidades de perigos à vida, propriedade e ao meio ambiente podem
ocorrer. Ainda assim, mesmo quando não for possível evitar ou desviar,
as contingências devem ser lançadas para impedir o pior.
O ciclo da Gerência de Crises
deve ser entendido em fases. Durante a formulação do planejamento
estratégico fazem-se a identificação, a preparação e o desenvolvimento
das ações para as prováveis crises. Nesta etapa o alinhamento com a
visão e a missão da organização deve ser considerado para garantir a
coerência entre as ações e o modo como a empresa se posiciona no mercado
e se relaciona com as partes interessadas. Na fase seguinte, aí sim,
durante a crise, ocorre a resposta (implementação do plano) e o controle
das ações. Naturalmente, as equipes já foram identificadas e treinadas
anteriormente. A pós-crise ocorre com a operação de recuperação da
situação e o aprendizado a partir dos fatos e das evidências, fechando,
assim, o ciclo.
Quanto à necessidade do plano
de ação previamente estabelecido, já estamos de acordo. Porém, os
procedimentos devem ser flexíveis o bastante para auxiliar o tratamento
da crise. É altamente recomendável, portanto, que esses procedimentos
incluam as seguintes questões: como evitar a falta de informação externa
e interna à organização; como neutralizar, rapidamente, os rumores e as
informações erradas e falaciosas; como evitar o pânico aos acionistas e
aos clientes; como oferecer suporte institucional aos afetados; como
concentrar as ações que demonstrem às partes interessadas a confiança e
o restabelecimento da normalidade.
Faz pouco sentido falar em
Gerência de Crises, no sentido preventivo que aqui abordamos, sem
contextualizá-la na formulação e desdobramento do Planejamento
Estratégico. Do contrário, tratar crise é tão simples quanto chamar a
força-tarefa para apagar o incêndio e, quando muito, cuidar do rescaldo.
Quem subestima a Gerência de Crises, enquanto disciplina gerencial, pode
acreditar: vê uma crise como oportunidade para ficar em evidência. É o
perfeito gerente-narciso-super-herói: entra em cena no seu belo cavalo
branco, briga com o bandido destruindo toda a cidade, não mata o bandido
e saí todo bonito empinando o cavalo. A platéia fica emocionada com a
performance do super-herói, aplaude e fala bem do filme. O bandido,
porém, continua em atividade e a cidade está destruída.
*por
J. Claudio Cinelli Lobo de Oliveira,
sócio-diretor da QualiMática Consultoria. Reprodução proibida.
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